quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A GUERRA DOS QUASE CEGOS

Minha motivação para escrever este texto é pessoal. Minha amiga Vivian Mendes, alguém que sempre admirei muito pela disposição para a luta em prol daqueles que precisam de justiça (em diversos planos!), sofreu com a violência policial em uma manifestação em São Paulo na última semana. Não consegui permanecer calada. O mais interessante é que, mesmo sabendo que tenho uma visão diferente das coisas, Vivian nunca me criticou. E essa relação de respeito é a base para que eu pudesse pensar da forma que penso. Temos visões de mundo diferentes e isso não impossibilitou nossa convivência, nossa amizade. No entanto, no mundo lá fora, não é sempre assim.

Essa coisa de visão de mundo é algo engraçado. Todo mundo tem a sua e alguns grupos se formam por conta de visões semelhantes sobre determinados pontos. E mesmo em pequenos grupos há divergências. Imagine nos grandes... apesar de se unirem por um ou dois aspectos em consenso, nem sempre as pessoas se comportam da mesma maneira, veem as coisas da mesma maneira. E assim aconteceu durante a manifestação em que Vivian estava. Por que em meio a protestos legítimos há sempre alguém disposto a quebrar, desrespeitar...? Irônico que um movimento em luta por direitos seja ‘composto’ também por pessoas que não os respeitam. Pode ser que estivessem ali não pelos direitos, mas por SUA visão que, de acordo com a MINHA, é deturpada, doente, imbecil.

Assim é o mundo. E visões diferentes sobre ele são tantas quanto os seres humanos que o habitam. Daí, quando uma delas considera necessário e legítimo exercer poder sobre outras pessoas, a coisa fica feia. A quebradeira é um exercício de poder sobre os outros por meio da depredação da propriedade. A violência contra pessoas é ainda mais covarde. Vivian a viu de muito perto, a sentiu na pele. Impossível para uma amiga não se preocupar, mas resisti à ideia de pedir que se afastasse do que ela chama de luta. Não tenho esse direito. Ela conhece os riscos e ainda assim escolheu esse caminho. Caminho que muitos já escolheram na história da humanidade e, se não fosse por eles, não estaríamos usufruindo direitos tão básicos como a liberdade, por exemplo.

Seria ideal se todas as visões de mundo pudessem se apropriar de um verdadeiro diálogo. Se todo detentor de visão de mundo soubesse que o que pensa é apenas uma entre tantas visões. Mas mesmo aqueles que conhecem essa característica peculiar da humanidade, não conseguiriam VER todas as visões, RESPEITAR todas elas. Não somos capazes disso. Só Deus é. No entanto, mesmo sabendo disso, continuo na minha luta de ampliar a visão de mundo dos meus alunos, enquanto luto para ampliar a MINHA. O que não significa que sou capaz de não repudiar toda forma de violência. E mesmo na ‘trincheira’, Vivian, na há apenas dois lados, não é? Apesar de a polícia achar que sim...


Minha amiga, dizer ‘sem direitos, não vai ter copa’, é uma declaração de guerra. Pelo menos discursivamente. Sinto em dizer que é uma guerra dolorosa, desigual e que não tenho coragem suficiente para que possa lutar com você. Quero, sim, que o mundo seja mais justo, inclusive com aqueles que têm essa coragem para gritar por justiça. Que o Estado passe a escutar de tal forma que não seja mais necessário gritar. E que todos os envolvidos pelo menos ganhem a percepção de que visões de mundo são parciais, sejam semelhantes ou diversas. Quem sabe assim o ranger de dentes e a violência possam diminuir. Enquanto a humanidade tiver que gritar, provocar e sofrer violência, significa que estamos travando uma guerra de quase cegos. Nem por isso, desnecessária.

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